quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

Peço milagres para dia 20: Caiam, anjos, caiam!

"O orador: - Dr. presidente! Que me não queiram persuadir que estou em casa de orates! Que é isto? Que bailar de ébrios é este em volta de Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um enviado do povo exclama: Não tireis à Nação o que ela não vos pode dar, governos! Não espremais o úbere da vaca faminta, que ordenhareis sangue! Não queirais converter os clamores do povo em cantorias de teatro! Não vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das suas economias para regalos da capital, enquanto ele se priva do apresigo de uma sardinha, porque não tem uma pojeia com que comprá-la."

Camilo Castelo Branco, A queda de uma anjo (1865)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

A quê cracia?



Assisti com bastante atenção ao primeiro (e único) frente a frente entre Sócrates e Santana. Vi todas as repetições, de todos os ângulos, nos vários canais. Li comentários, reacções, vi os meninos da JSD aos saltos com hinos de louvor ao seu consagrado líder, vi os senhores jornalistas a explicar quainhentas mil vezes aos senhores candidatos que não podiam interromper o adversário, vi os senhores candidatos e dizerem sim senhor já percebi e a cometer a mesma falta logo de seguida. Mas, acima de tudo, vi um grande vazio ideológico (de ideologia, de ideias, de idiotas). Vi um Portugal no presente e um Portugal do futuro próximo mergulhado nesse vazio. Um Portugal espremido até ao tutano por esta Ditadura Bi-partidária que o deixou magrinho. Um Portugal apenas com duas alternativas de poder que já provaram estar esgotadas e terem esgotado o sistemo democrático actual. Um PS e um PSD que pintam um Portugal cinzento. Um PS e um PSD fartos de governar. E um BE, uma CDU e um PP para cumprir calendário (porque não os deixamos ser mais nada) à espera do milagre das coligações. Vejo esta democracia a dizer "morri, mas não me deixam morrer". Vejo um voto em branco, apetece reler Saramago. Apetece-me gritar: "Leiam Saramago e os porquês da Lucidez!". Mas depois não grito, nem leio.
Mas... e a seguir à democracia vem o quê? Alerta vermelho de quem nada sabe: estamos a viver uma fase de transição extremamente perversa e imensuravelmente perigosa. Sublinhem os advérbios de modo para depois não dizerem que não avisei.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

Só...

Saiu sem dizer nada, de mansinho
A porta ficou entreaberta, como que na esperança secreta de que alguém a seguisse
Muda, como sempre
Do princípio ao fim do constante sofrimento, não disse nada
Muda, como sempre
Fica a coragem de quem sofreu sem querer fazer sofrer e a admiração de tantos que, não a conhecendo, a conheceram tão bem
A efemeridade é isto
E só...

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

Um dia um Trono será vosso: o do ridículo

A questão tornou-se outra. Curiosa a metamorfose das palavras. Ou melhor, a capacidade que as palavras têm de metamorfosear as coisas. A questão tornou-se outra: extrapolou-se. Falava-se de um facto, discutia-se, as palavras não enganavam: Foi, ou não foi, ou terá sido. Dizia-se que não e que sim e porque isto mas não podem esquecer aquilo, emendava-se, refutava-se, ouvia-se, crescia-se. Mas agora não. Agora remonta-se a 1725 para justificar a queda de um mosquito em plena Avenida. As palavras e as ambições: fundidas. Explosivas, certamente. Porque não? Não, porque as coisas não foram essas. E já ninguém sabe do que se fala. É muito fácil confundir as ideias, as palavras (com outras) quando a ambição sobra e reclama por mais. E talvez por isso já nada se perceba do que se evita dizer. Atira-se a palavra lá para o meio da batalha e defende-se do ricochete. Duas regressam, multiplicadas por mais. Outras, sem nada para dizer, que não ficam sem resposta. Em que ano? Ontem. Foda-se, em que ano?!? 2004. E ficam todos por ali, incendiando uma discussão porque ninguém os ensinou a conversar. Extrapolou-se: já não se diz nada. E eu apenas isto: Não contem comigo para incêndios de nada.

sábado, 20 de novembro de 2004

O Aviso!

A idade, infelizmente, não perdoa. Todos vamos envelhecendo, a pouco e pouco, e os meus amigos são, inevitavelmente, uma excelente expressão disto. Um dos tiques da idade é o iniciar da aquisição de toda uma série de expressões, gestos, frases feitas. Uma delas é o típico "Eu bem avisei". É rude, mesquinho, pretencioso e, em boa verdade, desmotivador de diálogos.

Apetece-me citar (e posso fazê-lo, uma vez que este espaço apenas possui dois proprietários ou, numa expressão menos capitalista, moderadores) a Lei de Imprensa, cuja última revisão data de 13 de Janeiro de 1999. Em boa verdade, só me interessam, para o caso, não desfazendo, as alíneas 2 e 3 do 1º artigo: "2 - A liberdade de imprensa abrange o direito de informar, de se informar e de ser informado, sem impedimentos nem discriminações. 3 - O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura."

A Associação Académica da Universidade do Minho (de ora em diante, se necessário, o que não me parece, referida como AAUM) segue, num regime hierárquico perfeito, todas as directivas governamentais, mormente as que aos órgãos de comunicação social se dirigem. (O meu objectivo, não alcançado por má escolha das palavras, era que esta frase se revestisse de uma ironia sagaz.) A AAUM (afinal, usei a sigla!) era proprietária de uma publicação semanal que, habitualmente, trabalhava numa relação de tu pagas a impressão e eu não falo mal de ti (onde é que eu já ouvi isto?). De vez em quando, lá surgia um maluquito (apesar de não parecer, não se pretende que este vocábulo seja insultuoso, discriminatório, mas sim, à sua maneira, um tanto ou quanto carinhoso) ou outro que, almejando demonstrar coragem, se virava ao dono (sempre adorei esta expressão que, por acaso, não é minha). (Reparem, agora, no encadeamento de sucessivas e requintadas metáforas:) Ora o dono, sentindo-se ultrajado, pegava num jornal e, à boa moda portuguesa, ia espancando docemente (é possível?) até conseguir o amestramento do(s) infractor(es). Como este processo não funcionasse, pasmo total, a AAUM (terceira vez) decidiu, pura e simplesmente, dissolver a redacção do periódico e, também à boa moda portuguesa, assumiu aquele ar meio afectado que eu costumo intitular de nós por cá, tudo bem.

A idade, de facto, vai avançando e eu começo, já em novo, a ter alguns tiques desse amadurecimento. Também já adquiri toda uma série de expressões, gestos, frases feitas. E já que disso falamos, apetece-me dizer (e, mais uma vez, posso): Eu bem avisei!

PS - Perdoem-me o regionalismo do tema apresentado mas, de vez em quando, dá-me para a felonia...

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Silêncio

Os meus silêncios mais valiosos ocorrem quando deixo falar quem sabe. Olhem só este Senhor:

"Quando bush fez o seu discurso visionário a anunciar que ia levar a democracia ao Médio Oriente, Yasser Arafat era já um líder democraticamente eleito, ao contrário do que sucede em quase todo o Médio Oriente. Foi imediatamente posto de lado. Decidiram que não o queriam, porque não fazia o que lhe diziam. É por isso que estavam encantados com Portugal e Espanha [digo eu: note-se: antes da Invasão ilegal de territórios iraquianos], mas não com a França e a Alemanha. No caso de Portugal, não conheço os números, mas sei que a maioria da população era contra a guerra. Em Espanha o Governo deu o seu apoio contra a esmagadora vontade da população. (...) Em França e na Alemanha agiram de acordo com a vontade das pessoas. Por isso, em relação a Arafat, se arranjarem alguém que permita a Israel ficar com a maioria dos territórios ocupados, muito bem. Será pura democracia."

Noam Chomsky, in Visão nº610



domingo, 31 de outubro de 2004

O Primeiro Post

verbeteiro, s. m. móvel onde se dispõem os verbetes; ficheiro.
verbetar, v. tr. registar em verbete; pôr em verbetes. (De verbete+ -ar).
verbete, s. m. papel avulso em que se regista um apontamento. (De verba+ -ete).

E assim, estupidamente, está publicado o primeiro post.